Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Pão careca


Me dei conta que desde 15 de junho não escrevo aqui.

Alguns escreveram e eu pude fazer um rápido "comment" sobre o que aconteceu. Mas hoje vou mais além nisto tudo.

Já fazia um tempo que conheci esta Casa. Uma Casa que o amor construiu. Num domingo chuvoso, estava eu chegando naquela rua quase vazia para entrar naquela Casa com brinquedos que minhas filhas haviam separado para eu levar para as crianças de lá.


Cheguei lá pelo pedido de minha filha "mais velha". Estudava numa escola em que a diretora era voluntária nesta Casa.

Neste domingo, conheci ela por dentro. Caminhei pelos seus quatro cantos. Me mostraram até as "câmaras frias". Uma para congelados e outra para hortifrutis.

Perto dela, da cozinha, uma pequena oficina onde um humilde servo do Senhor executava ora mais lentamente do que os outros esperavam o trabalho de manter em ordem a partes hidráulica e elétrica das instalações.


Nesta mesma casa um elevador que hoje os responsáveis pela sua manutenção insistem em não colocá-los para funcionar deixando que aquelas crianças, umas de muletas (por impossibilidade ou por amputação) precisam ser carregadas pelo colo dos voluntários que dedicam seu tempo e seu amor ao próximo, me levou a conhecer uma sala onde os voluntários se reunem para tomar conhecimento das rotinas do seu plantão.

Um mesmo andar onde tive meu primeiro impacto emocional que acabou por, tempos mais tarde me afastar da Casa por entender que não poderia ser daquela forma. Foi ali naquele segundo andar que conheci um paraense em tratamento. Hoje ele já foi embora, deixando uma imensa saudade.

Conheci o que viria a ser uma graciosa sala onde os pequeninos poderiam exercitar ludicamente sua mente muitas vezes afetadas pelo desenvolvimento da doença.

Percorri alguns outros lugares.

Me envolvi com aquelas crianças. Voltei outras vezes antes de me afastar para cuidar do meu emocional.

Voltei. Voltei de uma forma que eu achava que poderia voltar: cuidando da reformulação do site deles. Me dediquei um bom tempo a isto. Fazia à distância, mas meu coração estava lá dentro, pulsando junto com cada uma delas.

Ainda não era minha "hora"! Era preciso respeitar o tempo.

Rodei por outras terras. Fiz tantas outras coisas. Deixei de fazer muitas mais.

Me desviei para a gastronomia. Povoei meu espírito com esperanças e desejos. Sonhos. Projetos de vida e de futuro.

Andei por cozinhas inimagináveis. Conheci gente de branco que hoje fazem parte da minha galeria de idolos. Homens e mulheres, sem preconceito.

Voltei.

A vida me colocou de novo dentro daquela Casa. Minha caminhada me levou de volta. Talvez necessariamente. Talvez para poder um dia transformar alguns de meus sonhos em realidades.

Chegou o momento de começar a dividir os conhecimentos com aqueles que precisam. Chegou o momento de devolver aquilo que recebi como presente: amor, carinho.

A porta foi aberta e uma luz me chamou. Não poderia recusar este chamado. Um anjo que hoje usa óculos estendeu-me a mão. Falou coisas doces ao meu ouvido. Segredos que só nós dois sabemos.

Voltei.

Em princípio o susto ainda não passou: a vida está de ponta-cabeça como dizem os paulistas.

Os desafios são imensos. Mas tenho certeza que não desapontarei aqueles que acreditam em mim. Vou superar minhas limitações porque o amor é maior. A vontade de acertar é grande.

E aquela luz está diante de meus olhos todos os dias.

Mas e o pão careca do título?

Sim, ele faz parte de um dos sonhos que falei ai em cima.

Em breve (certamente já em setembro) estarei materializando ele. Dedicar uma tarde por semana ou por mês para meu "plantão" de voluntário.

Neste plantão estarei passando para as acompanhantes das crianças e adolescentes que são acolhidas nesta Casa o que aprendi sobre pães. Minha primeira missão é levar a elas a possibilidade de terem em casa o "pão nosso de cada dia".

Quero ensinar a elas a fazer fermento. A longa fermentação... Quem sabe até consiga a doação de um forno adequado para isto?

Bem, mas por enquanto o foco até o dia 30 de agosto é um só: ajudar a vender mais de 210 mil BIGMACs no Rio de Janeiro.

Temos uma obra a começar. A expansão desta Casa para abrigar mais crianças que o "Estado" não consegue dar uma adequada assistência.

Por isto a convocação para que os cariocas que por aqui passem nos ajudem a isto. Precisamos de voluntários para nos ajudar nesta missão. Precisamos de pessoas (de todas as idades, credos, raças...) para nos ajudar a superar esta meta. Gente que possa estar nas lojas do McDonald's neste dia 30 de agosto.

Mesmo que minha linha gastronômica seja de longe outra "praia", estarei trabalhando para ajudar estas crianças e adolescentes.

Minha convicção saberá dividir estas coisas. Por isso peço que comprem ANTECIPADAMENTE tíquetes que poderão ser trocados pelo sanduíche no dia 30 de agosto sem atropelos. Ou, pelo menos, sem outra fila...

Conheçam o site de lá. Escrevam para nós.

Conto com cada um de vocês.

Os de São Paulo também podem se engajar nesta tarefa.

Vou estar falando disto aqui neste espaço democrático e especial.


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Domingo, 15 de Junho de 2008

Um novo miolo


Tem horas na vida da gente que o vício, o prazer começam a querer comandar nossos caminhos.

E cozinheiro tem muito disso. Eu acho. Eu observo. Uns até dão o "nome" de conceito a esta "repetição" de determinadas receitas.

Minha cabeça vez por iutra se rebela com essa repetição que agente acaba até caindo na mesmice. Tem sido assim desde muitos tempos. No desenvolvimento de processos, na informatização deles e depois, na criação.

Agora, na cozinha, na oficina ou até no dia-a-dia essas crises de repetição me assustam.

Hoje foi com pão.

Já vinha um tempo "trabalhando" os mesmos conceitos: o pão "normal" e o "pão de longa fermentação". É claro que me apaixonei por estes. O sabor final é algo assim como inesquecível. É como uma viagem a minha infância quando comia pães da padaria do "seu" António "português" lá pelos lados da Botija. Um lugar que mesmo parado no tempo acabou tomando nova "Denominação de Origem Controlada"... Mas deixa pra lá. Quero guardar como era no meu tempo de cinco anos correndo pelos verdes que ainda existiam por lá ou indo ver meu tio jogar bola...

Então hoje, o alarme laranja tocou na minha cabeça. Apesar do dia lindo lá fora, resolvi me "enfurnar" na cozinha para fazer meus pães da semana.

Agora, ajudando a cuidar da Casa que o Amor Construiu minha semana ficou curta: resume-se a apenas os dois dias do final dela. Os outros dias são dedicados àquelas crianças que vêm cuidar de sua saúde aqui no Rio. Mas isso é papo para outro dia.

Me dei conta que sempre variei meus pães em cima de grãos. De processo de preparo. Ainda não havia feito a variação que também, de uma certa forma, traz o conceito de pão funcional para a mesa. É, sempre gosto de acrescentar alguma coisa que tenha a função de ajudar a saúde de quem come meus pães e não apenas o básico que apenas engorda...

Resolvi fazer de cenoura. Tão simples que até dá vergonha de dizer que ainda não havia feito deles. E foi assim, substituindo a pura água de moringa por água de cenoura que ele tomou forma e sabor...

Mais? Para que? Apenas isto e já temos um novo pão. Ideal para aquelas pessoas que nem gostam de cenoura. Fica apenas a cor e o sabor lá no fundo. Sutil. Mas a essência ali presente. É assim que gosto. Fico imaginando aqueles meninos e meninas carequinhas provando deles. Um dia dona Sonia vai permitir. Logo depois do dia de comer sanduíche para ajudar mais delas a encontrar uma acolhida nos seus dias complicados de ânsia pelo efeito colateral dos remédios que podem curá-las.

Então, apenas duas cenouras médias. Algo como 150g, descascadas e passadas pelo liquidificador para virar "água de cenoura". Depois é só seguir uma das receitas que já foram descritas por aqui.

E, este, ficou assim...

[clique sobre a imagem para ampliar]


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