domingo, 8 de maio de 2011

A melhor comida de minha mãe

Essa viagem iria ser grande e complicada. Iria levar um tempo bem grande e era preciso me acostumar com a condução. Apertada como uma dessas cápsulas que levam astronautas ao espaço.

O chefe, para me liberar, tinha uma lista de recomendações, por assim dizer, um monte de coisas que eu poderia fazer e outras que não. Me lembrou de que a viagem iria me dar muitas alegrias mas que, também, em determinados momentos, iria vivenciar experiências que fariam lágrimas descer pelo meu rosto. Mas logo a seguir, voltaria a sorrir, de novo.

Tudo pronto, foi dada a partida do veículo. Nos primeiros momentos tudo era estranho. Me virava de um lado para outro: não encontrava uma posição confortável para a viagem. Mas, era o que eu tinha. Não tinha guloseimas para ir beliscando como todo mundo faz em viagens. Afinal minha bagagem não estava exatamente ao alcance de minhas mãos. Apenas me lembrava de cada coisa que estava levando para a viagem. O local da chegada, totalmente desconhecido. Só tinha visto ele de fotos e alguns pequenos filmes.

As pessoas que lá viviam eram estranhas, por assim dizer. Tinham hábitos diferentes dos de nossa cidade. Mas eu havia preparado essa viagem com cuidado e levara bastante tempo em seu planejamento.

Passei sobressaltos na viagem. A sensação que eu tinha é que a estrada misturava trechos de asfalto e esburacados trechos de terra e pedra. Mas uma coisa foi certa: não tivemos paradas para lanche ou pipi. Foi direta.

A chegada, a boas vindas foram dadas por um senhor com um nome estranho: Waldomiro Chastinet. Enfim ele apenas gostava de ser chamado de doutor Chastinet. Então, que seja. Afinal não custa nada a gente fazer a vontade de certas pessoas. Afinal, foi ele quem abriu a porta para eu sair. Nem seimbem se era alegria pela chegada ou meu primeiro grito de rebeldia... É possível.

Logo fui encaminhado a passar por uma situação estranha: fui envolto nuns panos e me colocaram numa bacia com água... Recepção estranha para quem chega de uma viagem, não. Mas foi assim.

Depois disso, acho que perceberam que eu estava com fome. Afinal a viagem fora longa e sem a companhia de comida. Estranhei não me deixarem comer na viagem. Queria alguma coisa que me fosse forte o suficiente para me dar forças para seguir minha viagem.

Então, fui levado a conhecer uma forma engraçada de se comer. Era como um aparelho que tinha uma espécie de bico. Colocaram minha boca ali naquele bico e como que por instinto, comecei a sugar. Um líquido meio grossinho, assim como se fosse um mingau ralo, um caldinho grosso, de um gosto meio esquisito mas que eu sentia que a cada chupada que dava aquele caldinho me revigorava. Era um prazer tão grande estar ali, numa posição confortável para aquela minha primeira refeição ali. Depois de um bom tempo que pude ficar ali aproveitando tudo que tinha direito um senhor, que não sabia bem qual era sua função me pegou no colo e, meio sem jeito, me colocou de encontro ao seu ombro e começou a me dar uns tapinhas nas costas. Senti um movimento esquisito dentro de mim e logo ecoou um barulho que se seguiu de gargalhadas dos que estavam à minha volta. Mais umas balançaddinhas e eu fui colocado para dormir. Que sono gostoso! Nada melhor depois da longa viagem, um banho, a comidinha caseira e um boa sesta! Afinal quem não gostaria?

Quando acordei fui apresentado àquela que iria cuidar de minha estadia. Dona Diva. Uma bela garota, novinha ainda em seus vinte anos de inexperiência mas que demonstrou logo nos primeiros momentos de nosso relacionamento um enorme carinho por mim. Logo pensei: vai cuidar de minhas coisas com muito carinho.

Suas mãos afagavem meu corpo como se fôssemos íntimos há tantos anos e, no entanto estava conhecendo ela naquele momento. Tinha ali na recepção uma outra risonha senhora chamada por eles da Maria José. Esse nome me era familiar pois lá onde morava tinha sido apresentado à Maria. Ela tinha uma história e tanta de vida para nos contar. Sempre tinha um monte de gente junto a ela ouvindo seus relatos de vida.

Aquele doutor que me recebera, logo foi embora. O senhor que me colocou para dormir, ainda meio desajeitado não parava de falar nem de andar de um lado para o outro. Não sei se de nervoso ou de alegria. Seu coração batia muito acelerado. Levou o doutor até a porta e subiu as escadarias tão depressa que, mesmo no meu sono consegui ouvir os toque-toque do pisar nos degraus.

Que recepção! Pensava eu em meu sono. Era estranho tudo aquilo. Uma viagem que nunca havia me lembrado de ter feito. Que recepção!

Foi assim que cheguei nessa vida. Foi assim que pude comer a primeira comidinha que minha mãe me deu. Depois daquele peito oferecido com o leite da vida ela continuou a cuidar de mim. Banhos, agasalhos, carinho, broncas... e comida. Com ela, ao longo do tempo, fui me chegando ao fogão, me interessando pelo comer com prazer. Fui descobrindo ingredientes e modos de preparo. Quando ela foi frequentar um curso de confeitaria eu sempre estava do seu lado. Na hora do confeito dos enormes bolos de casamentos que ela fazia eu ali, fazendo artes. Até que um dia caí com uma concha e levei meus primeiros pontos na testa. Até hoje tenho essa marquinha.

Mesmo brigando comigo eu sempre notava o seu coração apertado. E foi assim por toda a minha vida. Ainda hoje ela procura sempre estar com seu olhar já meio cansado desta vida que não acaba brilhando ao encontro dos meus. E hoje, mesmo triste consigo entender o porque daquele pedido que me fêz: “não me apareça aqui no domingo. O dia das mães é qualquer dia que você vem e traz alegria pro meu coração. Presentes são os que tens me dado ao longo da minha vida...”.

E qual foi a melhor comida que tua mãe te deu?

F A C I L I D A D E S
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4 comentários:

Cezar disse...

Bastante inspirado, cunhado.
Muito bonito.
Feliz "dias" das mães.
Cezar

Anônimo disse...

Alcançar a essência dos sabores é entrar em sintonia com lembranças guardadas em arquivos que criamos para preservar nossas memórias mais tenras. O cheiro de quintal lá da infância da gente, o gosto do almoço caprichado aos domingos, as conversas com a mãe à beira do fogão, o café da manhã com pão quentinho, os sonhos partilhados, o cheiro de feijão cozinhando na panela, o aroma de erva colhida na hora, um finalzinho de tarde com encanto. Tudo isso é despertado quando conseguimos reproduzir o sabor de pequeninos gestos tecidos a luz do cotidiano de uma cozinha afetiva.

Maria disse...

A comida, eu não me lembro, pois foram tantas...
Mas lembro do presente.
Foi no Natal de 1958. Ela me deu o presente maior: a vida.

Irani disse...

Carlinhos,
O maior presente que minha mãe me deu foi a vida e o carinho, superando todos os obstáculos para nos transformar em seres éticos e úteis para a sociedade...Voce sabe disso tão bem quanto eu.
Um beijão na tia Diva.
Bjocas, Ira