quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um doce de leite simples e gostoso

Como quase perfeito aquele que apenas tenhamos a sensação de ser doce. Apenas isto: simples assim.

Não quero doce de leite que o primeiro sabor a ser sentido seja o do açúcar. Quero perceber os sabores do leite e depois o do açúcar. Difícil nos dias de hoje numa cidade “grande”. Faltam matérias primas honestas e adequadas.

Parti em busca do desejo: fui a um lugar onde já não ia faziam seis anos. Isto mesmo: depois de viver intensamente aquele lugar, afastei-me por diversos motivos que não importa neste contexto.

Um lugar de muitos aprendizados e de muitas saudades. Lá conheci fogão à lenha, lá aprendi a catar lenha morta para fazer nossa comida, lá aprendi a tirar leite de vaca, de manhã cedinho, ainda escuro e muitas vezes, muito frio, com o campim ainda molhado do sereno...

Lá aprendi que sino em certos lugarem tocam por coisas sérias. Lá aprendi a comer goiaba no pé, montado numa égua. Lá aprendi a escolher a galinha do almoço, a tomar café da manhã com ovo recém-nascido. Lá aprendi a encher uma saca de arroz e de feijão na mala do carro para trazer pra casa da cidade. Lá aprendi a encher meus dias de felicidade.

No fogão à lenha, esquentava o pão francês dormido com manteiga de lá da cooperativa (nenhuma é igual a ela). Lá tomava o peimeiro leite num copo lavado na água da nascente e jateado na horinha. Lembrava as vezes em que menino ainda, na casa do vô Chico, vó Georgina fazia isto com a teta da cabra que lhe dava o leite de cada dia. Lá comia coalhada como nenhuma outra mais comi. Lá nós comíamos todos juntos, numa mesona de 26 lugares... Saudades. Mas, o tempo passa. Valem as lembranças e a alegria de ter vivido isto.

O leite já havia chegado. Como souberam de minha intenção de fazer doce de leite, estavam todos igual abelha... Leite peneirado mais uma vez, foi colocado no caldeirão 3 litros. Gordo. Inteiramente integral. Deixamos levantar a primeira fervura. Retiramos a nata que se formou com uma escumadeira. Fogo na bunda do caldeirão e um quilo de açúcar. Do refinado mesmo. Receita pós moderna diriam os jovens chefs de cozinha recém-saído de suas teóricas escolas.

Colher de pau (afinal na roça só se usa colher de pau pra fazer doces. Nunca se soube de alguém que tivesse morrido por comer doce mexido com colher de pau. Naquela época morria-se de outras coisas que não mais existem.

Passava de uma hora de musculação. O leite precisava ser mexido sem parar para não “agarrar” no fundo da panela.

E a conversa fiada corria solta naquela cozinha que ainda guardava um pouco de passado. Nem que fossem as telhas e caibros enfumaçados que cobriam nossas cabeças. Os azulejos já comidos e amarelados pelo tempo que estavam agarrados naquelas paredes. Não chão, piso de ladrilhos como não mais se fazem em nome da modernidade. Sem brilhos e ásperos para que nenhum de nós levasse um escorregão quando molhados. Muita farra e muito olho gordo no caldeirão.

Começa a engrossar e a branca coloração do leite começa a se misturar com o tom caramelado do açúcar. Mais braço forte pra mexer. Mais escurinho é como eu gosto. Mais grossinho. Pronto! Ficou na cor e na consistência esperada.

É hora de pegarmos (dois de nós) o caldeirão e virar num pote de louça que deveria ter algo como uns 180 anos de vida. Meio quebradinho e todo estalado na porcelana que cobria o barro de sua alma. Mas vivo e prestimoso para acolher nossos doces.

Esperar esfriar. Sim. Mas e a fila para lamber a colher? Briga. Gritos de sou eu!, é minha!, eu também quero! E a panela? Mesmo depois de tirado o máximo com a colher ainda sobravam veios de doce agarrados na parede do caldeirão. Muitos dedinhos (até as crianças disputavam uma lambida) passaram por ali. Uma farra e tanto.

Ainda bem que nessa hora ninhum deles lembrou do queijo que estava ali no armário “apurando” a textura. Tinha sido feito no dia anterior e estaria pronto para a festa na hora do jantar. A sobremesa esperada e desejada por quase todos: doce de leite com queijo Minas fresco.

De comer ajoelhado. Lindo, cor suave, mais ainda assim doce. De Leite de teta de vaca! E o queijo? Úmido e denso. Desmanchando a cada mordida ou cortada de garfo.

Vontade de ir ali comprar leite (de saco que seja) e fazer um tantinho pra comer escondido...

F A C I L I D A D E S
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8 comentários:

Anônimo disse...

Carlinhos babei no teclado!!!
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Meu reino por uma fatia desse queijo e uma colher de sopa cheia desse doce de leite feito com leite fresco!!!
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Eu faço leite condensado e doce de leite em casa com o açucar demerara e por aqui também tem a disputa pela colher e pela panela. :)
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E ao invés de mexer a todo momento, eu só mexo quando o doce começa a engrossar pois na fase inicial coloco um pires emborcado dentro da panela. Astúcia do tempo da vovó para não entornar o leite ;)

Bisous,

Fátima Dias disse...

Tô aqui babando... que delícia, eu também raspar a panela. Bjs.

cronicas gulosas disse...

Rapaz, que delícia. Mas quanto tempo para ficar pronto, em média?
Abs

Anônimo disse...

Carlinhos,
Adoroooooooooooo doce de leite e este me deixou de água na boca.
No próximo encontro da turma voce vai ser o responsável pelo doce de leite ou... não sei o que será mais apreciado...Vamos fazer uma enquete. Bjocas, Ira

carlinhos de lima disse...

Crônicas, vai depender do poder do fogo do teu fogão. Mas algo como uma hora é razoável.

Ira, ai pertinho de você tem uma Mestra nesse doce: Haydée. Foi ela quem me ensinou...

Fatinha, faça-o!

Minha querida e sumida Ana, bom ler você por aqui. Bisous procê também.

Karina Batista disse...

Nossa!!! Por um momento, ali no meio do texto, pensei que você estivesse descrevendo um pouquinho da minha infância. Saudade de tirar leite de vaca e dos doces da vó Angelina.

Karla Maria disse...

Carlinhos,
que relato tão doce e maravilhoso.
Lembrei da casa da minha avó onde às sextas feiras era dia de fazer os doces de banana de rodinha, de goiaba em calda e de leite, esse o meu preferido.
A minha tia-avó Julita, deficiente visual, ficava sentada na ponta de um dos bancos enormes da mesa e, quando a gente passava pra dar uma colherada na beirada que ia ficando grossa, ela dizia "Karlinha, doce quente faz mal", sentia que a gente passava pelo cheiro. Saudade que me deu.
Bj

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