domingo, 26 de abril de 2009

A vez da... história dos ovos


Engraçado essa coisa de ovo, não é? E acabei recebendo um belo email falando do que acabou provocando o post anterior sobre os ovos.

Aqui sentado, lendo o texto, deliciando-me com os comentários feitos pelo Sérgio (um voluntário de dar aulas) acabei voltando – eu mesmo – no meu tempo.

Até me casar sempre morei em casa. Sempre convivi com as boas coisas que comíamos em nossa mesa caseira. Meu vô materno, um português de Vila Pouca de Aguiar, gostava dos "bichos" como ele sempre falava. Lá na casa dele tinha porcos, cabritos, ovelhas, patos, galinhas e um belo cão. Também uma horta onde suas couves e sua figueira davam inveja a qualquer um. Também, cuidadas com água de poço... Também, lá no meio do mato nasceu um pé do tão precioso limão-cravo (naquela época um simples limão-galego). Também tinha uma fonte de água mineral que depois era passada, inicialmente para uma moringa e anos mais tarde para um filtro de barro que reinava sobre a bancada da pia da cozinha. Era nossa água pura de todos os momentos.

Naquela casa aprendi a tomar leite de cabra na boca; leite de vaca na caneca, assistia a matança de porcos e cabritos sem contar das galinhas escolhidas para serem nossas refeições. Galinhas criadas com milho, minhocas e soltas pelo enorme quintal. Aprendi a chamar as galinhas para o milho, aprendi a segurá-las pelas asas para o golpe certeiro no pescoço previamente desfolhado das penas. Separar o sangue para o molho (pardo) de algumas vezes. Comíamos muito com batatas porque português que se preza come batatas quase sempre.

Ali aprendi a "descobrir" os ninhos das galinhas que insistiam em esconder de nós os ovos fresquinhos. Nada que um dedo com sal não resolvesse isso para nós.

Ali, na convivência, assistia o cortume dos couros das cabras e cabritos virarem inicialmente grafismos nas paredes de um velho depósito que era chamado de "barracão". Depois, cobria o chão da casa num tapete natural.

Quanta saudade daquele tempo... Mas e os ovos?

Foi ali que aprendi que o ovo saia das galinhas. Foi ali que aprendi a comer omeletes feitos pela minha vó Georgina. Aliás, foi ali que pude aprender o que era natureza. Tinha quase sempre uma vaca que nos fornecia um leite grosso e gostoso.

Foi ali que aprendi que criança para parar de chupar dedo precisava que seu dedo-chupeta fosse enfiado na bosta quente da vaca. Infalível?

Ali aprendi a comer bucho com batata e azeitonas verdes, a catar farelinhos do pão da melhor padaria que conheci em toda a minha vida e que hoje virou obsessão conseguir reproduzir os pães da minha infância.

Mais tarde conheci uma fazenda de verdade, onde na época da fartura do café em Minas Gerais tinha até senzala e escravos. Fazenda de sonhos que hoje vive de lembranças numa casa-sede desfigurada pois já nem tem mais o fogão de lenha que me encantava. Nem o sino da igreja que me proporcionou o primeiro e único "pito" que levei da Conceição.

Ali o presente era no café da manhã. Acordar e ir ao galinheiro procurar nos ninhos os ovos ainda quentinhos do corpo delas e ainda assim aquecendo nossas mãos na corrida até o fogão de lenha para fazer nosso ovo na manteiga da cooperativa de lá. Era imprescindível que suas bordas ficassem bem douradas, quase queimadas num ovo imperfeito aos olhares da minha paixão gaúcha. A gema ainda mole apenas presa até que o garfo ou uma casca de pão a estourasse e ela banhasse o pratinho branco num amarelo muito vivo que ainda hoje pinta a minha memória. Todas as manhãs, contrariando o que nossos médicos da cidade-grande diziam, comíamos um ovo. Companhia perfeita, muitas vezes, para a broa de milho feita ainda cedo para acompanhar o café com leite de vaca (não de caixa). Açúcar cristal (porque era o usado para fazer as compotas de frutas que ainda existiam por lá).

Ah que saudades dos ovos da casa do vô Chico e depois da fazenda no sul de Minas. Saudades do queijo feito na casa da vizinha e da goiabada do Luizinho (sem competidora nesse Brasil todo!).

Aprendi a fazer bolos que ficavam amarelinhos (não só a broa de milho). Afinal ali era o milho que elas comiam pela manhã e na hora de irem dormir. Depois de mortas a moela denunciava isto e não aquela pasta esbranquiçada que encontramos nas galinhas das cidades.

Tudo por casa dos ovos. Tudo porque o Sérgio me mandou aquele email. Tudo por causa das lembranças.

E agora uma pergunta fatal: o que é pior: as lembranças ou a falta delas?


F A C I L I D A D E S

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6 comentários:

Katia disse...

Carlinhos, que delícia de texto! Você é o nosso bálsamo com estas lembranças. Claro que a falta de lembranças é que é o pior. Sem elas eu não teria reavivado todas essas cenas que você tão bem descreveu. Deus te ajude a ser sempre assim. Extremamente sensível.

Fatima Menezes disse...

Oi Carlos!! Muito poético... Acho que você toca em um ponto essencial para pensar a alimentação: nossas marcas da infância, nossas lembranças... isso é fundamental para definir nossas escolhas e contribuir positivamente para a nossa saúde. Adorei! Lembrei de duas crônicas que gosto muito (Comida de Alma da Nina Horta e O ovo do Veríssimo)e de um texto de um antropólogo (Comida e Antropologia do Mintz). Conhece? Beijinhos e até sexta!

disse...

Trabalho em uma editora de São Paulo especializada em gastronomia. Gostaria do seu e-mail. Obrigada!

Anônimo disse...

Oi Carlos
Como já disse anteriormente, amo ler tudo que você escreve!!
É óbvio,que o pior é não ter histórias para contar...
Continue escrevendo essas coisas maravilhosas que me fazem viajar e esquecer por algns momentos, essa vida tão agitada que nós levamos.
Um grande beijo de saudade.

Fatima Dias disse...

Oi Carlos
Como já disse anteriormente, amo ler tudo que você escreve!!
É óbvio,que o pior é não ter histórias para contar...
Continue escrevendo essas coisas maravilhosas que me fazem viajar e esquecer por algns momentos, essa vida tão agitada que nós levamos.
Um grande beijo de saudade.

carlinhos de lima disse...

Maira já escrevi para teu email...
De qualquer forma: bacalhaucombatata@cdelima.com.br