domingo, 29 de agosto de 2010

As broinhas de fubá


Ainda eram muito cedo. 5 da manhã quando aquele orelhudo começou a gritar no meu ouvido. Um tapa na sua testa foi o suficiente para ele calar a boca, mas o tombo que ele levou acabou tendo que me fazer levantar da cama. Peguei aquele enorme relógio que mais parecia o Mickey com as suas enormes campainhas parecendo duas orelhas.

Então, ainda tonto de sono e por conta da escuridão, consegui chegar até a porta do quarto que me emprestavam naquelas noites que ali passava. A bolsinha com escova e outras coisinhas e a toalha vieram agarradas pelo braço.

Passei nos quartos que os outros ocupavam e chamei todos os que comigo iriam partir para o curral. Um a um foram aparecendo com a mesma cara de sono, cabelos em pé e pijamas amassados.

Nos encontramos na cozinha onde o Luizinho já estava com o fogo aceso terminando de coar um cafezinho preto para esquentar por dentro. Ao vê-lo tremi ainda mais de frio. Uma fina camiseta e a calça. Nos pés uma daquelas botas de borracha. Só isso para aquele frio que deveria estar próximo dos 11 graus. Era julho, de um tempo em que o inverno era inverno. Tomamos um copo de geléia de café e logo a fila seguia ele pela estradinha de barro ainda muito úmida de orvalho e neblina.

Nós caminhávamos encapotados, com luvas nas mãos e toucas na cabeça. Luizinho, ria e provocava cada um de nós.

A lida começava cedo todos os dias. Nem chuva, nem sol, nem feriado, nem domingos poderiam ser pretexto para descanso. A vida na roça não para.

Chegamos no curral. As meninas meio assustadas com a proximidade das vacas. Os meninos, sempre mais atrevidos, iam para junto delas querendo mostrar uma intimidade que logo percebíamos ser falsa. Enquanto isso, Luizinho caminhava rápido entre o gado, colocando as vacas numa fila para que pudesse retirar o leite. Logo amarrava o bezerro numa das pernas dianteiras da mãe e amarrava as duas pernas traseiras junto com o rabo. Sentava em seu banquinho já agarrado à cintura e posicionava o balde abaixo das tetas já limpas. Logo começava o leite a espumar no balde. Uma a uma as vacas eram ordenhadas e o leite coado na peneira enchia o latão. Por fim, lá ia ele com o copo retirar da Malhada o leite que cada um iria provar. Apenas meio copo porque não estávamos “acostumados” com tanta fartura de gordura. Um leite gordo, espesso que ainda hoje sou capaz de senti-lo em meus lábios só de pensar.

Tudo pronto, o latão foi colocado na caminhonete para ser levado até o ponto de coleta.

Ali ainda ficamos para as próximas tarefas. Primeiro, colocar a forração no coxo para que as vacas pudessem se alimentar, ainda ali na cocheira depois da fartura do leite que nos deram. Uns bezerros ainda estavam pendurados nas tetas para sugar o que sempre ficava para eles.

A próxima atividade era passar o milho, já debulhado na tarde anterior pelo Luizinho, numa enorme máquina que iria fazer o fubá consumido na casa. Um enorme barulho assustava passarinhos das árvores mais próximas que alçavam voo em direção às árvores mais longes. Jogávamos o milho na parte superior e, embaixo, um saco de aninhagem era enchido com aquele pozinho amarelo vivo.

Levamos aquele saco para a cozinha. Lá, a primeira coisa a ser feita foi um belo angu para o almoço.

De tarde, depois da cozinha arrumada, na hora de pensar no lanche veio a idéia de se fazer aquelas broinhas que só em Minas se pode fazer: milho moído quase na hora e fogão à lenha.

Logo, na bacia de fazer doces, a Juça colocou a medida do fubá e um tantinho de farinha de trigo. Mediu açúcar e sal e colocou ali. Com sua mão de dedinhos curtos, rodou de um lado pro outro fazendo a mistura daqueles ingredientes. Deixou ali na mesa enquanto fervia o leite, a manteiga e um pouco de água. Heresia, talvez, com aquele leite purinho. Mas a justificativa era pra não dar “piriri” no povo da cidade... Até hoje acreditamos!

O leite quase fervido, com seu colar de bolinhas foi despejado sobre os secos e rapidamente mexido com uma colher de pau. Depois, seus vigorosos braços foram colocando os ovos colhidos naquela manhã – tudo fresquinho – e logo tudo mexido e pronto para uso. Cobriu com um pano de prato para descansar um pouco. Sempre tem que descansar a comida depois de muita mexida. Ela precisa relaxar para poder fazer bem para o nosso corpo.

A lenha já estava aquecendo bem o forno. Pegou um tabuleiro e untou com manteiga (eita fartura de manteiga – e das boas!). Passou um pouco dela por dentro de uma xícara já de asa quebrada e fez chover fubá ali dentro. Pegou duas colheres de sobremesa e encheu uma delas bem fartamente. Com a outra, empurrou a massa para dentro da xícara. Daí começou a rodar a xícara para formar uma bolinha de massa, toda empanada de fubá. Colocou no tabuleiro. E assim foi fazendo até que aquele tabuleiro ficasse cheio. Depois, colocou aquele no forno enquanto enchia mais um tabuleiro.

O cheiro assombrou a casa toda. Um perfume inebriante que só quem o sentiu tem condição de saber o que é.

Mais um tempinho ela foi lá dar uma espiada no forno. Abriu um tantinho a porta e espiou: - tá pronto! E logo, com um pano de prato na mão, puxou o tabuleiro e o colocou na mesa. Aproveitou para colocar o outro tabuleiro ali dentro.

As bolinhas estalaram na parte de cima. Meio dourado-escuro contrastava com o amarelo-vivo do fubá com os ovos. Era possível ver os pequeníssimos grãos do fubá que empanou a massa, ali presentes como um enfeite sutil.

Logo uma mãozinha gorda foi vista seguindo a direção de uma delas quando se ouviu o grito:

- Tira amão daí menino. Tá muito quenti. Você vai se queimá. Espera isfriá!

O susto foi tão grande que todos se afastaram da mesa. Mas os olhinhos ficaram ali, agarrados nas broinhas...

Enquanto isso a Juça foi preparar um bom bule de café fresquinho. Ou quentinho, não é? Fresquinho de novo!

Logo que o outro tabuleiro ficou pronto e foi colocado o café na mesa, foi um Deus nos acuda. As broinhas acabaram logo...

Pra você não ficar triste, aqui vai a receita modernizada...

ingredientes: ¾ de xícara de fubá, ¼ xícara de trigo, ½ xícara de açúcar, 1 pitada de 3 dedos de sal, 75 gramas de manteiga, 3/4 xícara de leite, ½ xícara de água e 3 ovos.

Preparo: separe todos os ingredientes. Os secos numa vasilha. Aqueça o leite com a água e 50g da manteiga até formar um colar de bolinhas. Adicione todos os secos de uma única vez. Misture vigorosamente com uma colher de pau para poder umedecer todos os secos. Cozinhe um pouco até começar a dar sinais de pegar no fundo da panela sem parar de mexer.

Leve para a tigela da batedeira e deixe esfriar. Algo como 15 minutos. Enquanto isso aproveite para lavar o que sujou...

Na batedeira, adicione um a um os ovos até que fiquem totalmente incorporados.

Unte uma xícara de fundo arredondado e polvilhe com fubá. Encha generosamente uma colher com a massa e com a ajuda da outra colher, coloque na xícara. Faça movimentos circulares até formar uma bolinha. Coloque no tabuleiro previamente untado (pode ser com óleo vegetal) e leve ao forno médio. Asse até dourar.

Deixe esfriar antes de comer e depois nos conte como é comê-la tomando café preto, coado na hora em coador de pano.


F A C I L I D A D E S
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9 comentários:

Ariana Pazzini disse...

Adoramos o seu blog! Continue sempre assim, simplicidade+ assuntos interessantes!

Ana de Bruxelas disse...

Hummm essas broinhaz fazem um sucesso por aqui...
Merci por nos doar, além de deliciosas receitas, preciosas recordações!!!
Bisous,

isabelllinha disse...

não consegui entrar no twitter de vcs...
isabelllinha

isabelllinha disse...

o blog, a receitinha, rsrrsrs e o e-mail tudo cadastrado e copiado, mto 10

Natural Naturalmente disse...

Fui lendo e fui fazendo, há anos não como broinhas de fuba... acrescenteu foi umas sementinhas de erva doce....
Bjs
Márcia

Natural Naturalmente disse...

Postei a fotografia das minhas broinhas...
São divinas...
bjs

pintodelima disse...

Que bom ter vocês por aqui.

Ariana, bom saber que és mais uma que gostas da simplicidade. Vou conhecer esta Casa Encantada devagarinho...

Ana, minha adorável amiga de longe! Bom ler você por aqui. Beijos na troupe!

Isabelllinha, até já te mandei email!

Márcia estive por lá e refiz as instruções para te encorajar!

Bom ter pessoas assim para nos incentivar. Voltem sempre. Recomendem aos seus amigos!

Natural Naturalmente disse...

Carlinhos... Já esta recomendado...
Obrigada!

Elisangela Moraes disse...

Sempre que como broinhas de fubá lembro da minha infância. Incrível seu conteúdo, parabéns.