domingo, 15 de agosto de 2010

As Minas do queijo


Bem cedinho, fazia um frio de lascar! Até touca na cabeça e luva chamada de mão de macaco (até hoje não sei porque). Era o momento do encontro com o dia ainda acordando e cheio de fumaça fria que insistia em sair de dentro da gente. As crianças brincavam com isto...

Juntamos todo mundo e lá fomos em direção às chaminés de Minas. Pela estrada sinuosa, beirada de trilhos e coberta de dormentes a locomotiva insistia em carregar aquele peso todo em direção à serra. Um apito aqui, outro ali, a farra no vagão era a mostra da alegria que eram aqueles passeios.

As estações passavam por nossos olhos e a conversa esticava e passava por tantos assuntos que nem dá mais pra lembrar de qualquer um deles. Era conversa de viagem de trem. Assim mesmo, meio perdida, meio sonho de cada um.

Os bancos de madeira e uns poucos assentos macios de uma lona já rôta pelo tempo e pela falta de conservação – coisas do nosso Brasil varonil que gosta de andar na contramão da história – faziam nossos corpos sacolejarem como se num lombo de burro estivéssemos. Mas era gostoso. E o que nos esperava alentava nossos corações e deixavam nossos olhos grandes e brilhosos por tudo que eles conseguiam enxergar.

Das últimas estações as lembranças que não se perdem no tempo: Sapucaia, a penúltima. Uma estaçãozinha simples de uma cidade do interior. A plataforma, já toda acimentada era varrida por Severino um fiel servidor da Estrada de Ferro já com seus caracóis branquinhos e os cambitos ainda firmes no passinho manso pela idade e pela nascença nas Minas Gerais. Um pito de palha no canto da boca soltava uma preguiçosa fumacinha meio sem-graça, mas constante.

Seu Antônio, o chefe da estação herdara de antepassados o bigodão característico de nossos irmãos d'além-mar. Seu impecável uniforme de calça azul marinho e camisa social branquinha tinha coroado um belo quepe preto. Ele avisava da chegada dos trens, soando uma campainha nervosamente balançada por conta da cordinha puxada com veemência pelas mão embrutecidas de seu Antônio e, na hora da partida. Logo depois, antes de “soltar” os freios o maquinista soltava um longo apito pra avisar aos atrasados que iria partir.

Mais adiante, passávamos sobre o Paraíba do Sul de leito forte e seio cheio de peixes para alegria dos ribeirinhos. Hoje o progresso está acabando com ele ali naquele pedaço por conta de uma hidroelétrica em construção. Ali, bem pertinho desta, uma outra leva os carros e outros andantes para uma curiosa Mar de Espanha.

Seguindo por entre encostas e campos abertos chegamos a avistar as palmeiras enfileiradas para a chegada da cobra de ferro. Chico, para os íntimos, estava ali em sua farda apitando e balançando a bandeirinha num duplo aviso: o som para os que estavam na plataforma e trilhos e a bandeirola para o maquinista que já apitando lá na curva já vinha chegando.

Tudo se movimentava em volta da estação. Um grande movimento pessoas à pé ou à cavalo estavam por ali. Sacos de pano e abarrotados de frutas e frutos da terra, feijões, milho e outas coisas estavam ali junto com amarrados de galinhas e cestos de ovos. Aquele povo todo ia de trem para vender na feira de Além Paraíba, mais adiante.

Descemos misturando nossas algazarras com as deles. As que já conheciam o caminho nem pararam: seguiram direto para a casa-sede da outrora Fazenda Barra do Ouro Fino. Os novos, ali meio que indecisos entre correr atrás dos outros ou aguardar as orientações.

Ali, na porta da vendinha alguns ainda com o copo de branquinhas outros pitando uma palha jogavam mais conversa fiada fora. Ô povo pra prosear esse mineiro!

Carregadas por nós e ajudados pelos “da casa” lá se foi nossa bagagem para a casa-sede. Nem tão longe assim que não levasse mais que 2 ou 3 minutos de uma caminhada e uma passagem por uma mangueira já beirando os cabelos bem branquinhos. Se os homens de hoje tivessem mantido a sua vida ela estaria próximo dos 100 anos. Mas as motosserras cuidaram de acabar não só com suas mangas-espada como sua vida, sua sombra e alegria de meu coração.

Já na porta da frente o senhor Jorge, agora cuidador e dono da casa estava ali abrindo seus braços para abraças cada um de nossos corpos. Lá na entradinha dos fundos uma senhora de “poucos amigos” e bunda grande cuidava de manter o fogaréu do outrora também vivo fogão à lenha. Ali do lado um estoque imediato de mortas árvores da “fazenda” acendiam o fogo que nos manteria aquecidos nas noites que ali nos juntaríamos para jogar conversa fora, como se sala de estar fosse. Sobre a trempe muitas panelas e ao campo – isso não pode faltar – um bule de ágate verde com café passado no coador de pano e que já vinha adoçado...

O feijão e o arroz plantados, colhidos e catados já estavam ali numa panela de ferro. O arroz branquinho, soltinho pelos enormes garfos que serviam também para virar um enorme pedaço de peito de vaca que dormia entre batatas coradinhas de vergonha. Numa outra panela o angu mole soltava bolas de ar pelo calor que sentia em sua bundinha. E ainda ficava com a cabeça meio tampada...

Depois, uma enorme mesa onde cabiam pelo menos umas 20 pessoas folgadamente era servida. O alarido era assustador com todos querendo comer daquela comida que soltava fumaça de tão quentinha que estava. Era o contraste com a fumacinha que saia de nossas bocas pelo frio que fazia.
Reconfortados pela comida nos dividimos: as crianças, para o quintal em busca dos desconhecidos pés de frutas e do que fazer. Os mais idosos, na copa, cuidando das louças e panelas. Os homens para a varanda para colocar em dia as novidades de todos os lados. Outros procuravam entre os livros da biblioteca de lá o que ler.

Nem bem havíamos acabado de comer e as mulheres cuidarem das coisas a limpar, quando tudo parecia acalmar, lá se juntam elas para reproduzir uma das melhores delícias entre as comidas de Minas: o pão de queijo. Há quem discorde disso. Mas eu apenas disse uma das melhores, no plural porque certamente esta lista é muito grande assim como um trem...

Água pra ferver. Separados os ovos, os polvilhos, a manteiga, o leite, uma delas foi designada para ralar o curadinho feito lá mesmo e que dormia por mais de 15 dias sobre uma tábua, virando todos os dias no seu sono preguiçoso depois do banho diário. Antes de ir pra cama eles eram enxugados pra não pegar resfriado...

A água fervida foi misturada com um tantinho de leite. E lá foi ela escaldar os fermentos. Com a ajuda, inicial, de uma colher de pau, o polvilho foi revirado para que todo ele pegasse dessa água. Mexeu-se bem até que esfriasse o tanto que desse para ser colocado os ovos, um a um e mexidos para incorporar à massa. A seguir, o queijo foi misturado formando uma massa mais para mole do que para dura. Elas cobriram com um pano de prato e olharam para o relógio da sala que só andava se apertassem suas cordas. Algo como meia hora, se tanto. Acho que o tempo de cuidar dos tabuleiros e colocar mais lenha na boca do fogão para aquecer bem o forno.

Colocaram num prato fundo óleo e um tantinho de leite. Mediam a quantidade com colheres de sopa (na realidade a bondade de cada uma fazia com que cada colher tivesse uma quantidade de massa. Passavam para as mãos molhadas na mistura do óleo com leite e faziam as bolinhas que eram colocadas no tabuleiro. Tabuleiro cheio ia logo pro forno. E logo que o cheiro dele quase pronto se espalhou a gritaria aumentou com todos querendo comer...

Uma das mulheres já havia providenciado “café preto” para alegria dos que gostavam.

Bem, traduzindo para os dias de hoje e para que você possa repetir ai, junte 1 xícara de polvilho doce com 1 xícara de polvilho azedo. Essa mistura será escaldada com 1 xícara de água com ¼ de xícara de leite. Misture bem até que esfrie a ponto de não cozinhar os ovos. Misture um ovo, depois mais um e adicione 100 gramas de queijo. Use o que tiver mas fica melhor com canastra ou Minas curado. Faça as bolinhas e coloque num tabuleiro. Forno pré-aquecido de meio para alto e vigie até que fique douradinho (se gostas de crocante por fora e molinho por dentro). Se quiseres congelar, coloque a massa em forminhas de empadinhas de festa e coloque no congelador ou freezer (algo como duas horas). Retire com a ajuda de uma faquinha, etiquete um saco plástico e coloque novamente no freezer. Essa quantidade de massa rende 50 forminhas dessas.

Bom prazer. Ah, não esquece de me contar duas coisas: que queijo usaste e quanto tempo durou esta receita, tá?

Espero que você não compre mais em supermercado...

F A C I L I D A D E S
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3 comentários:

Pirussas disse...

As aventuras de empregado Gourmet Novo!

http://ohpirussas.blogspot.com/

Li disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Robert disse...

Hi..!!
Very Nice..Good job..

Robert White……
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