segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Tapioca com acerola


Eu já havia falado de acerolas...

Semana passada estive na casa da dona Diva. É uma senhora que vai chegar logo logo aos oitenta. E me conhece desde antes de eu nascer.

Lá na casinha onde ela vive tem um pé de acerola que é um amor: fica cheinho de bolinhas vermelhinhas que acabam por me fazer voltar no tempo.

No tempo em que eu só comia frutas colhidas no pé. Maduras. No tempo exato que a mãe natureza sabe que elas estão prontas. Nem um pouquinho mais nem um pouquinho menos.

Lembro das mangas carlotinhas com gosto de mangas, abiu, tamarindo, uvas, manga espada, goiaba, abacate, carambola, limão galego, figo... Ah, saudades.

A modernidade e as lonjuras têm feito os homens tirarem elas dos pés antes do seu tempo. O sabor muda. As texturas, nem se falam. Os cheiros, as cores. O frescor.

Sem saudosismo, até porque não adianta, eram mais gostosas. Criadas apenas ao sabor do tempo, com terra e água. E muitas vezes, apenas da chuva. Nem água de mangueira! (Ah, desculpa. Acho até que você não sabe o que vem a ser água de mangueira... Mas é aquele caninho que faz com que a gente leve a água da torneira lá para longe...).

Mas trouxe uma boa quantidade de acerolas. Todas no tempo. E apenas elas.

Um banho de água gelada nelas. Deixei ali até a água voltar à temperatura normal.

Escorri aquela água com jeitinho para não perder uma só delas. Apertei-as umas contra as outras. Calmamente, sem querer com isso usar apenas da força. Era preciso tirar um pouco do sumo.

Coloquei tudo numa caçarola (panela, não é?) e um pouco mais de água. Um terço mais ou menos. Acendi o fogo e deixei "levantar fervura". Assim que as bolinhas começaram a saltar indicando que a água havia chegado ao seu limite líquido, desliguei.

Elas ficaram ali uns quinze minutinhos pegando o calor. Esse processo eu aprendi nas minhas idas à roça. O povo de lá faz assim com frutas de caroço. Dizem que é para amolecer as "carninhas da fruta" que ficam agarradas nos caroços. Então eu fiz.

Depois disso, mais aperto nelas. Passei por um espremedor de batatas. Afinal, o objetivo era separar a polpa líquida dos "resíduos sólidos"...

Ao final, passei por uma peneira de plástico de malha fina. Questão de costume. Bem coadas, medi a quantidade de líquido. Dei uma rápida lavada na panela e coloquei o suco das frutinhas. Acrescentei um terço de açúcar cristal. De novo, como aprendi lá na beira do fogão de lenha.

Duas baguinhas de cardamomo pra misturar o exótico. Brincadeira com cheiros. Só isso. E muita, mas muita paciência e fogo bem baixinho. Depois disso, é só mexer, retirar as "espuminhas" que vão aparecendo para que o creme fique "liso".

Isso pode levar uma "eternidade". É preciso estar livre de todas as outras tarefas. Aproveite para fazer suas orações, pensar em coisas boas, recordar bons momentos. Cantar? Talvez. Se você gosta, vá em frente. Afinal, fazer comida é momento de transferir boas energias, amor, paz. A comida fica mais gostosa. Paz. Nada agitado. Ao seu tempo. Respeitando a natureza dos alimentos.

Ao chegar ao ponto desejado (e ai, cada um tem o seu: uns mais "apertados" (mais durinha) outros mais "frouxos" (mais cremosos, líquidos), passei para um potinho de louça para esfriar. Não existe "medida" para isto. É sentimento. É mão. É aprendizado. E cada vez que você fizer, vão sair diferentes. E pronto!

Mas ai surgiu a história da tapioca. Fiquei guardada na memória a frase "ela é maravilhosa; e versátil. Dá para fazer um monte de coisas...". E, novamente a roça presente. Resolvi fazer um creminho de tapioca pra comer com a geléia.

E, como diria uma grande paixão da minha vida "cuida como se fosse um bebê..." lá fui eu hidratar a tapioca. Não queria fazer como tantos outros. Fui colocando água aos poucos, colherinha por colherinha e mexendo para manter os grãos o mais separado possível. Foi assim até achar que estava pronto. Coloquei cinco medidas de leite. E a mesma medida de açúcar cristal. Ficou "de molho" por meia hora.

E, fogo". Mexendo sempre até que passando o dedo na bundinha da colher de pau ele não voltava.

Coloquei no ramequim que ganhei e, por cima a geleinha que havia feito.

Simples assim. Sem nada em volta. Só elas: a tapioca, a geléia e o ramequim.

Uma explosão de alegria!

Creme de tapioca com geléia de acerola
[clique sobre a imagem para ampliar]




13 comentários:

Fer Ayer disse...

Oi Carlinhos, deixei um prêmio para você lá no meu site...
Beijos

Gourmandise disse...

Faz tempo que não como acerolas....Bem brasileiro este doce!
bjo,
Nina.

Adriana disse...

TEM PRESENTE PARA VOCE NO SALA E COZINHA ENTRA PELAS TRE MARIAS NO PERFIL

Anônimo disse...

Carlinhosssssss..........
Mais fouxo o meu, se tiver escolha!!!!!!!!
Beijas!!!!!
Li

Elvira disse...

Gostei dessa sobremesa fresca e colorida! :-)

beijos.

Fer Ayer disse...

Te respondi o email ontem...vc recebeu?
Beijos

Anônimo disse...

deve estar uma delicia isso, hein!

Anônimo disse...

Carlinhos,

não sei o que está melhor, o teu texto maravilhoso ou esse doce delicioso.
Beijinhos,

Elemento L

carlinhos de lima disse...

Só posso dizer que acabaram rápido!
E querem repetir.

Atenção aos navegantes. Sem propaganda, mas apenas para indicar, a tapioca usada foi a da YOKI pois é mais granulada...

Anônimo disse...

ah...então, se for comprar tapioca na feira de são cristovão, devo comprar a mais granuladinha? pensei q vc usasse dessa e não da industrializada...
bjs,
Andréa

Maria disse...

Você soube pegar o sabor das minhas lembranças, fiquei emocianada com o texto e com a receita, beijo carinhoso em suas faces meu filho.

carlinhos de lima disse...

Fiquei feliz, Maria. Mas fique tranquila. É só me pedir que devolvo os sabores.

Muitos dos textos te remeterão às minhas lembranças olfativas. Minhas vivências junto as comidas carioca, mineira e paraense. Isso sem contar a portuguesa. Não dá pra deixar esquecido que aprendi a comer muitas delas com meu avô. Sempre à época do natal, ainda peço sua ajuda para escolher as castanhas para minha ceia. A preparar o bacalhau e a tantas outras coisas. Da paraense o inesquecível pirarucu, o cupuaçu, as castanhas, a maniçoba... Da Minas da fazenda de café que frequentei por quase 40 anos, o velho fogão de lenha que já não existe mais por conta das coisas do progresso idiota: o IBAMA não permite mais que moradores colham a lenha necessária para sua alimentação. Enquanto isso, a floresta... Bem, deixa isso prá lá.

Nádia Lamas disse...

Seu blog foi indicado por http://vieirasetrufas.blogspot.com/ para receber o selo "É um blog muito bom, sim senhora".